Luís Filipe Cristovão

Luís Filipe Cristovão 
Luís Filipe Cristovão (n. em 1979), natural de Torres Vedras, é um poeta português da actualidade. É licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, pós-graduado em Teoria da Literatura e Gestor Editorial e Livreiro na Livrododia Editores.
É director da Revista Literária Sítio e tem obra publicada em vários jornais, revistas e sítios.

Publicações: Registo de Nascimento (Livrododia, 2005), Pequena Antologia para o Corpo (Col. Palavra Ibérica, 2007), E como ficou chato ser moderno (Livrododia, 2007), Santa Cruz (Livrododia, 2008); A Cabeça de Fernando Pessoa (2009, Editora Ardósia, colecção de poesia luso-brasileira Pasárgada).

 
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Male Love

Alcides Baião, Maria João, 1998

Alcides Baião, Maria João, 1998
 

 

Tinhas vestida uma camisa do Arsenal de Londres
e à tua frente uma garrafa vazia de Coca-Cola:
não sei que dia seria mas era seguramente Outono
ainda não muito frio mas cheio de cinzento no céu.
Eu sentei-me à tua frente e pedi mais uma Cola.
só a voz monocórdica do relator do jogo
se ouvia a todo o comprimento do café.
Tínhamos dezasseis, dezassete anos, não me lembro,
o suor a cair-nos pela face e um sorriso
muito mais que entristecido nos nossos lábios.
Lembro-me do Jornal aberto na página trinta e três
de um jovem jogador acidentado e ferido
da ausência de qualquer esperança e qualquer alegria
naquele café longe de todos os estádios do mundo.
Tinhas vestida uma camisa do Arsenal de Londres
e à tua frente uma garrafa vazia de Coca-Cola:
era seguramente Outono, final de tarde a jogar futebol.
Ficámos calados quase uma hora, olhares estendidos um sobre o outro
e depois tu levantaste-te, deixaste umas moedas em cima da mesa, e foste embora.
Lembro-me o jornal aberto, impresso a uma cor,
com os resultados de todos os campeonatos nacionais
e também regionais, um mapa desfeito em uma só página
muito maior do que os nossos braços poderiam segurar
naquele café longe de todos os estádios do mundo
eu, que já sabia que tinhas ido embora para sempre,
dei enfim pela tua falta, entrada a pés juntos no meu coração.
 


in «Os Dias do Amor», pág. 400
Recolha, Sel. e Org. de Inês Ramos,
Ministério dos Livros Editores, 2009

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