ANTÓNIO JOSÉ FORTE

António José Forte

 

António José Forte (Póvoa de Santa Iria, 1931 - Lisboa no dia 15 de Dezembro de 1988).
Ligado ao movimento surrealista, fez parte nas décadas de 50 e 60 do chamado grupo do Café Gelo. Colaborou no segundo número da revista Pirâmide (1959) e em diversos jornais, tais como A Rabeca, Notícias de Chaves, O Templário, Diário de Lisboa, A Batalha, JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, publicou o seu primeiro livro, «40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes Numa Girândola Implacável e Outros Poemas», em 1958. A sua poesia está reunida em «Uma Faca nos Dentes» (Parceria A. M. Pereira, 1983), com prefácio de Herberto Helder e desenhos de Aldina Costa, artista plástica e sua companheira. Trabalhou durante quase trinta anos na Fundação Calouste Gulbenkian. Entre a sua obra, destacam-se, além dos já citados, os livros «Uma Rosa na Tromba do Elefante (1971)» – livro para crianças, «Azuliante» (1984), «Caligrafia Ardente» (1987), «Corpo de Ninguém», que reúne a sua obra poética (1989) e a 2ª edição de «Uma Faca nos Dentes» (2003), que inclui alguns poemas inéditos. Luiz Pacheco publicou «Mano Forte» – correspondência entre ele e A. J. Forte (2002).
 

Origem: Aventar 

Poema

Rilene Barreto, A Outra Face

Rilene Barreto, A Outra Face
 
 


Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na cuva de uma entrada


alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o funo fosse para se ler


alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasfasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios


alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar


(in 40 Noites de insónia)

 

«O Surrealismo na Poesia Portuguesa», Série Antologias
Organiz., pref. e notas de Natália Correia
Lisboa: Publicações Europa-América, 1973

Memorial

Rilene Barreto, A Máscara Rilene Barreto, A Máscara

 

 
As tuas mãos que a tua mãe cortou
para exemplo duma cidade inteira
o teu nome que os teus irmãos gastaram
dia a dia e que por fim morreu
atravessado na tua própria garganta
as tuas pernas os teus cabelos percorridos
rato após rato tantos anos
durante tanta alegria que não era tua
os teus olhos mortos eles também
na primeira ocasião do teu amante
assim como as palavras ainda fumegando docemente
sob as pedras de silêncio que lhes atiraram para cima
o teu sexo os teus ombros
tudo finalmente soterrado
para descanso de todos
- mesmo dos que estavam ausentes

 

in «Uma Faca Nos Dentes»
Prefácio de Herberto Helder
Desenhos de Aldina Costa
Ed. Parceria A. M. Pereira / Lisboa, 2003

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