CARLOS POÇAS FALCÃO

Carlos Poças Falcão

 

Carlos Poças Falcão nasceu em Guimarães, em 1951. Licenciado em Direito na Universidade de Coimbra, exerceu durante alguns anos advocacia, que abandonou para se dedicar à docência e à escrita.
Tem colaboração dispersa por numerosas publicações e revistas literárias.

Livros publicados: O Número Perfeito (edição do autor, Guimarães, 1987); O Invisível Simples (Limiar, Porto, 1988); Rotações [com António Ramos Rosa e Agripina Costa Marques] (Cadernos Solares, Lisboa, 1991); Três Ritos (Pedra Formosa, Guimarães, 1993); Movimento e Repouso (Pedra Formosa, Guimarães, 1994); Sinais [edição bilingue portuguesa-finlandesa, com fotografias de Markku Niemenlehto] (edição de autor, Guimarães, 1998); A Nuvem (Pedra Formosa, Guimarães, 2000); Coração Alcantilado, Opera Omnia, Guimarães, 2007


origem: Opera Omnis
 

em linguagem clara o abandono é o amor.

Carole Perret, La Fugue, Tempera s/ madeira at www.allartsgallery.com

Carole Perret, La Fugue

 

Em linguagem clara o abandono é o amor.
Quando a hora chega e o tempo se consuma
as mãos podem estar tranquilas
que o olhar vê tudo bem e o coração desprende


a nuvem exaltada. Disto muitos querem prova.
Estende-lhes a taça para sua provação
pois só quem faz a prova conhece este sabor.


Abelha no açucar e ave no pomar
som inicial duma canção fraterna
noite que ascende a uma estação mais pura
- ah, como escandaliza aquele que não ama
ver o amor provado do que todo se abandona!

 

in «A Nuvem», III. Dodecaemas
Guimarães: Pedra Formosa, 2000

20.

Evelina Oliveira - Galeria Aberta

pintura de Evelina Oliveira

 


como vai a minha vida
resistir?
chegam-me um espelho
dão-me alguma cor ao rosto
dizem ser tão cedo para estar vencida


mas alguém se aproxima
e cala e dá-me um beijo:
tão simples e exacta
é a sua resposta

 


in «A Nuvem», Pequeno Livro Azul*
Guimarães: Pedra Formosa, 2000

 

* Para a Mizé


Canto sem música e pensamentos sem
pensar, lembrando a tua imobilização no
hospital, em fevereiro; para ti e por ti.

Agora escuta: uma sagrada culpa

Carot Perret, Les Áleas du Temps at www.allartsgalery.com

Carot Perret, Les Áleas du Temps
 

 

Agora escuta: uma sagrada culpa
transforma-se em amor. Não é um sentimento
ou sombra da razão, mas antes a nobreza
que a inteligência ama, um rigor na imperfeição.


Contempla as suas linhas nas suas coluna
a nitidez de estela erguida ao lado esquerdo
com a lei e os avisos mais livres faiscando.


Move-te ao temor se a existência engana
lança um sobressalto se o coração se ilude.
Seu arco não concede descanso a asas fracas
ela que é abismo e voo sobre o abismo.
Ouvi-la nada pesa. O que faz peso é negá-la.


in «A Nuvem», III. Dodecaemas
Guimarães: Pedra Formosa, 2000

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