JERÓNIMO BAÍA

 

Jerónimo Baía, ou Vaía (1620/30-1688) nasceu em Coimbra, tendo professado no convento de São Martinho de Tibães (Braga), da Ordem Beneditina, a 4 de Maio de 1643. Frequentou a Universidade de Coimbra, foi nomeado cronista da ordem e mais tarde pregador na corte do rei D. Afonso VI. Com a deposição do rei, terá sido obrigado a regressar ao convento. Celebrizou-se como poeta lírico, e sobretudo burlesco, o que lhe valeu o cognome de «Poeta Folgazão». Além das composições poéticas que vêm publicadas na Fénix Renascida, escreveu as obras Lampadário de Cristal e Tardes de Verão, esta última em prosa e que narra os principais acontecimentos históricos do seu tempo. É considerado um dos autores mais significativos da literatura barroca em Portugal.
 

Origem: Projecto Vercial

Sonhando que via Márcia

Antoine Watteau (1684-1721)

Antoine Watteau (1684-1721)

 


Pintais, sono gentil, com belo ornato
Meu claro Sol, na vossa sombra escura,
Que posto que da morte sois retrato,
retrato sabeis ser da formusura.


Eu vendo o grato rosto, e peito ingrato,
Quanto formosa a sigo, a temo dura,
Porém firme no amor, fácil, no trato,
Me coroa a esperança, a fé me jura.


Cante pois, por tal glória, por tal sorte
Cante vosso louvor, minha Talia
No Ocaso, no Oriente, Sul e Norte.


Chame-vos, clara luz, não sombra fria,
Causa da vida, não irmão da morte,
Filho da noite não, mas pai do dia.


(in Fenix Renascida)

«O Surrealismo na Poesia Portuguesa», Série Antologias
Organiz., pref. e notas de Natália Correia
Lisboa: Publicações Europa-América, 1973

Achando alívio nas suas penas

Antoine Watteau (1684-1721)

Antoine Watteau (1684-1721)
 

 

Se para o canto amor me infunde quanto
No coração incêndio, luz na rima,
se como lima o peito, o verso lima,
se dá qual morte à vida, vida ao canto.


Pintarei tão alegre, doce tanto
A pena, que me mata, e que me anima,
Que quem do meu tormento se lastima
Me deseje o pesar, me inveje o pranto.


Vossa efígie, gentil Márcia adorada,
Qual foi da vista ao peito transferida,
será do peito ao verso trasladada:


E como vista em vós, em mim ouvida
Terá dobrado ser, vida dobrada,
se a quem morte me dá, dar posso eu vida.
 

in «Os Dias do Amor», por Inês Ramos,
Ver Ref.s em Livros de Apoio

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