ADÍLIA LOPES

Adília Lopes 

Adília Lopes, pseudónimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, (Lisboa, 20 de Abril de 1960) é uma poetisa, cronista e tradutora portuguesa.
Estreou-se em 1985 com o livro Um jogo bastante perigoso, seguido de O poeta de Pondichéry, A pão e água de Colónia, e uma série de pequenos livros reunidos mais tarde no volume Obra, do ano 2000. 

O estilo da poetisa, aparentemente coloquial e naïf, está repleto de jogos fonéticos, associações livres, rimas infantis e idiomas estrangeiros. Os temas do quotidiano, principalmente femininos e domésticos, são tratados com humor e auto-ironia, candura e crueza, inteligência e intencionalidade: «há sempre uma grande carga de violência, de dor, de seriedade e de santidade naquilo que escrevo». É Adília, católica praticante que por vezes transporta uma profunda religiosidade para o que escreve, que se define a si própria como «tímida desenrascada» ou «freira poetisa barroca».Seu trabalho tem sido traduzido para diversas línguas (italiano: Il poeta di Pondichéry, tr. Carlo Vittorio Cattaneo, Roma, 1988. / francês: Maria Cristina Martins & Le poète de Pondichéry, tr. Henri Deluy, Paris, 1993. / holandês: De dichter von Pondichéry, tr. August Willemsen, Rotterdam, 1997. / castelhano: El poeta de Pondichéry, tr. Mario Morales Castro, México, 1998. / alemão: Klub der toten Dichterin, tr. Elfriede Engelmayer, Berlim, 2000). Uma seleção de seus poemas (Antologia. São Paulo: Cosac Naify, 2002) foi publicada no Brasil na série Ás de colete, dirigida pelo poeta carioca Carlito Azevedo, tornando-se um dos livros mais conhecidos da coleção.
Colaborou com poemas, artigos ou poemas traduzidos, em diversos jornais e revistas, nacionais e estrangeiros.

Publicações: Um Jogo Bastante Perigoso (Ed. autora, 1985); A Pão e Água de Colónia (Frenesi, 1987); O Marquês de Chamilly (Kabale und Liebe) (Hiena, 1987); O Decote da Dama de Espadas (INCM, 1988); Os 5 Livros de Versos Salvaram o Tio (Ed. autora, 1991); O Peixe na Água (& etc, 1993); A Continuação do Fim do Mundo (& etc, 1995); A Bela Acordada (Black Sun Editores, 1997); Clube da Poetisa Morta (Black Sun Editores, 1997); O Poeta de Pondichéry seguido de Maria Cristina Martins (Angelus Novus, 1998); Florbela Espanca espanca (Black Sun Editores, 1999); Sete rios entre campos (& etc, 1999); Irmã Barata, Irmã Batata (Angelus Novus, 2000); Obra (Mariposa Azual, 2000; A Bela Acordada (Mariposa Azual, 2001); Quem Quer Casar Com a Poetisa? (Quasi, 2001); César a César (& etc, 2003); Poemas Novos (& etc, 2004); Caras Baratas (Relógio D'Água, 2004); Le Vrai La Nuit - A Árvore Cortada (& etc, 2006); Caderno (& etc, 2007) 

 

Origem: Wikipédia

primeiro amor

Deby Hubbs's Folk Art, Asian Girl

Deby Hubbs's Folk Art, Asian Girl


 

gostava muito dele
mas nunca lhe disse isso
porque a minha criada tinha-me avisado
se gostar de um rapaz
nunca lhe diga que gosta dele
se diz
ele faz pouco de si para sempre
os rapazes são maus
eu não era bela
nem sabia quem tinha pintado Os Pestíferos de Jaffa
resolvi assim escrever-lhe cartas anónimas
escrevia o rascunho num caderno pautado
não sei hoje o que escrevia
mas sei que nunca escrevi
gosto muito de ti
e depois pedia a uma rapariga muito bonita
que passasse as cartas a limpo
eu acreditava que tem tinha uns cabelos
assim loiros e a pele fina
devia ter uma letra muito melhor que a minha
agora que conto isto
vejo que deixo muitas coisas de fora
por exemplo que o meu primeiro amor
não foi este mas Paulo
o irmão da rapariga bonita


in «Quem Quer Casar com a Poetisa?»,
Quasi edições, Vila Nova de Famalicão: 1ª Ed. Junho de 2001
também publicado em
('365' nº 5, Março de 1999, Vila Nova de Gaia)

Entregámo-nos

Gonçalo Salvado,Tarde Azul - 2004Gonçalo Salvado,Tarde Azul - 2004

 

entregámo-nos
um ao outro
dentro dos lençóis
brancos
à tarde
na posição mais
ortodoxa
e agora sabemos
e não sabemos
um do outro
escrevemo-nos
escrevemos

 

in «O Peixe na Água»,
&etc, 1993

Maria Cristina espera

Sara Vieira, WindSara Vieira, Wind
 

 

Maria Cristina espera
por Guiherme
mesmo quando não tem
nenhum encontro marcado
com ele

 


in «Maria Cristina Martins»,
Black son editores, 1992

Correspondência

Maria Tereza Martins, Al knuz, acrilico sobre tela

Maria Tereza Martins, Al knuz, acrilico sobre tela

 

 

Com as minhas cartas de amor
vou fazer um castelo de cartas de amor


*


A vida não é um romance epistolar
ai de quem julga que é Marianna
e vive de cartas


*

Mais vale bater claras em castelo no Dafundo
do que ter castelos de vento em Espanha


*


eram de papel de carta
as minhas cartas de amor


*


As minhas cartas de amor
eram tão infelizes
que hoje são cartas de jogar


*


Viver de cartas é viver de vento


*


Não recebo correpondência meu amor
o meu amor não é correspondido
ao contrário do âmbar e do benjoim


*


De Espanha nem bom vento
nem bom casamento


*


O meu castelo de cartas é fraco
como um castelo de cartas
e como um castelo de cartas
O meu castelo de cartas é fraco


*


O vento deita por terra
os castelos de cartas
e os castelos

  

in «Os 5 Livros de Versos Salvaram o Tio»,
edição da autora, 1991

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