Inúmera

Alcides Baião, O meio da rua, 1998 Alcides Baião, O meio da rua, 1998

 

 

Que é daquela ribeira que reablita a pedra
Que é daquela cidade que dissolve o ciúme
Rasgavam-se crateras      E eu à tua espera
Por entre as mãos do vento rolava um alaúde
 


As noivas dos abetos vestiram-se de luto
As aias dos abutres caminhavam de rojo
Das trinta e nove amantes que me roubaram tudo
trezentas e noventa desfizeram-se em lodo


Volver as noves musas em noventa viúvas 
é aliás tão fácil     tão fácil que arrepia
Basta acender um zero depois de cada uma
e mergulhar os braços num poço de neblina


É de lá que ressurge negando a aritmética
de lágrimas coberta     de lágrimas tão nua
Ah pensar que podias ter sido a quadragésima
És afinal a única    És talvez a inúmera

 

(in Do Tempo ao Coração)

«O Surrealismo na Poesia Portuguesa», Série Antologias
Organiz., pref. e notas de Natália Correia
Lisboa: Publicações Europa-América, 1973

Clair de Lune

Gonçalo Salvado, Menina, 2004 Gonçalo Salvado, Menina, 2004

 

 

 

Debruço-me e descubro          em teu peito descubro


dois globos de cristal num deserto nocturno
duas tendas de fogo onde leio o futuro

 

 

in «O Futuro em Anos-Luz»,
Antologia de Poesia portuguesa,
sel.e org. Valter Hugo Mãe,
Porto: Edições Quasi, 2001

chama-se amor a isto

João Carita, I Lied just To Keep Him Happy

João Carita, I Lied just To Keep Him Happy

 


chama-se amor a isto:
beber horas roubadas,
no receio constante
de que alguém as descubra
       (assim se tem cadastro!);
morder com muita pressa
a polpa dos minutos,
sem lhes sorver o sumo,
sem lhes tirar a casca
       (assim se apanham úlceras!);
ter este modo brusco
de engolir os segundos,
como se fossem cápsulas
de qualquer barbitúrico
       (assim se morre às vezes!);
o culpado: este cão
que trazemos bem preso,
todo agarrado ao pulso,
e a que chamamos Tempo.
       (Sempre a ganir de susto.) 
 

in «Um Amor Feliz»,
Editorial Presença, 16ª ed. 2007

Como é triste Lisboa

Irene Pissaro, Olhando o mar Irene Pissaro, Olhando o mar
 

 

XLV

 

Como é triste Lisboa
em tempo de amores vivos!


Tira do gira-discos
o disco do Aznavour.


Antes mortos amores
que não poder vivê-los


entre a raiva dos muros
e o rancor das pessoas.


Rasga as fotografias
tiradas em Veneza.


Melhor: deita-as ao fogo,
deixa o fogo lambê-las,


até ficarem todas
cor de casco de gôndola.


Sobretudo o retrato
em que estamos os dois,


de pé, junto de um poço,
tão naturais, tão vivos.


Que bom se o nosso amor
lá tivesse morrido!

 

in «Um Amor Feliz»,
Editorial Presença, 16ª ed. 2007

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