Orquestra, flor e Corpo

Claudio Bravo

Claudio Bravo

 

 

Orquestra, flor e Corpo:
                                         doravante direi
Como do corpo a música se extrai,
Como sem corpo a flor não tem perfume,
Como de corpo a corpo o som se repercute.

 

Orquestra, sim: orquestra. E flor. E noite.
doravante dizendo orquídea negra
É logo o violoncelo nomeado;
E logo, logo, os instrumentos de arco
Arremessando vão a flecha ao alvo;
E é logo o alvo peito!
E é logo o amor,
E é logo a noite
Murmurando "Até logo!" à outra noite...

 

De corpo a corpo a noite se transmite.
Orquestra, sim: orquestra. E flor. e vaga.

 

E a noite é sempre o corpo anoitecido,
E o corpo é sempre a noite que se aguarda.

 

De corpo a corpo o som se repercute,
de vale em vale,
                                  de monte em monte,
de címbalo, de cítara, et coetera,
ao tímpano sensível que o recebe.

 

Sem concha do ouvido,
                                                       o mar não tem rumor.
sem asa do nariz,
                                       não voa a maresia.

 

E o mundo só é é mundo enquanto houver o corpo,
de música e de flor universal medida.

 



in «Os Quatro Cantos do Tempo», Canto I
Lisboa : Guimarães Editores, 1963

Paisagem

Alberto Vargas

ilustração de Alberto Vargas


 

Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exacto.

Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno desta praia.

E desejei: <<Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!>>

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.

(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)

 

in «A secreta Viagem»,  2ª ed.
Lisboa : Ática, 1958

Nocturno

photo.net
© Anakin Sk

 

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...

 

Era, no copo, além do gin, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

 

Era no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy...
Era, na jarra, de repente um lírio!
Era a certeza de ficar sem ti.

 

Era o ladrar dos cães na vizinhança
era, na sombra, um choro de criança... 


 

in «Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa», Eugénio de Andrade,
Campo das Letras - Editores S.A., 7ª Ed. 2002

Casa

Carol Saxe, Sea Breeze I  

 

 

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.


Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.


Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão ...


Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.

in «Música de Cama»
Lisboa:  Presença 1996

PRESÍDIO

Zhaoming Wu,  Dancer

 Zhaoming Wu, Dancer 

 

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

 

E o ventre, inconscientemente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

 

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

 

Vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!
 

 

in «Obra Poética - 1948-1988», 
introd. de Eduardo Prado Coelho, 
Presença; Lisboa, 1996

Ternura

Zhaoming Wu, Evening Time
Zhaoming Wu, Evening Time 

 

  

Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...

 

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

 

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

 

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós! 

 

in «Música de Cama»
Lisboa: Presença 1996

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