
MANUEL ALEGRE
Teu rosto de desastres e tormentas

José Manuel Gómez
Teu rosto de desastres e tormentas
e risos lágrimas e sol e vento
teu rosto de marés e vagas lentas
em que o prazer é quase sofrimento
e o sofrimento é como rosa roxa
florindo devagar em tua boca
se a minha mão te chicoteia a coxa
e no teu corpo há uma égua louca.
Começam então as tuas doces queixas
e vais para um país onde desmaias
quando o sol no teu rosto acende flechas.
E eu temo que te percas e não saias
do abismo em que te abres e te fechas
de cada vez que te levanto as saias.
in «Sete Sonetos e Um Quarto»,
Publicações Dom Quixote, 1ªEd, 2005
Nossos corpos agora estão feridos

José Manuel Gómez
Nossos corpos agora estão feridos
por naufrágios ao largo dos Açores
e por luas que sangram nos sentidos
quando um amor se vai e morrem flores.
desfazem-se e renascem corpo a corpo
e há sempre um por fazer no já desfeito
há um corpo que salva a nado o outro
quando às vezes o mar entra no leito.
Nossos corpos cansados não se cansam
e não se perdem mesmo se perdidos
e ainda que tão perto não se alcançam.
Por isso por si mesmo estão feridos
e em suas próprias feridas é que dançam
os deuses que se escondem nos sentidos.
in «Sete Sonetos e Um Quarto»,
Publicações Dom Quixote, 1ªEd, 2005
TEORIA DO AMOR

Franz Heigl, Paare II
Amor é mais do que dizer.
Por amor no teu corpo fui além e
vi florir a rosa em todo o ser
fui anjo e bicho e todos e ninguém.
Como Bernard de Ventadour amei
uma princesa ausente em Tripoli
amada minha onde fui escravo e rei
e vi que o longe estava todo em ti,
Beatriz e Laura e todas só tu
rainha e puta no teu corpo nu
o mar de Itália a Líbia o belvedere
E quanto mais te perco mais te encontro
morrendo e renascendo e sempre pronto
para em ti me encontrar e me perder.
in «Obra Poética»,
Dom Quixote, Lisboa, 1999
CORAÇÃO POLAR

Beautiful Rafaela
Não sei bem de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus náufragos
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.
in «Senhora das Tempestades»,
Dom Quixote, Lisboa, 1998
E ALEGRE SE FEZ TRISTE

Pale Shadows
Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno agosto.
Ela só viu meus dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.
A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.
E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.
in «366 poemas que falam de amor»
AS FACAS

Daniel Gasser, Frauenkorper
Quatro letras nos matam quatro facas
que no corpo me gravam o teu nome
Quatro facas amor com que me matas
sem que eu mate esta sede e esta fome.
Este amor é de guerra. (De arma branca)
Amando ataco amando contra-atacas
este amor é de sangue que não estanca
Quatro letras nos matam quatro facas.
Armado estou de amor. E desarmado.
Morro assaltando morro se me assaltas
e em cada assalto sou assassinado.
Quatro letras amor com que me matas.
E as facas ferem mais quando me faltas.
Quatro letras nos matam quatro facas.
in «366 poemas que falam de amor»
