E. M. DE MELO E CASTRO

 

 

E. M. de Melo e Castro nasceu na Covilhã, em 1932.

Poeta, crítico e ensaísta. Formou-se em Engenharia Têxtil em Bradford (Inglaterra), em 1956. Foi professor de Design Têxtil no IADE (Instituto Superior de Arte, Design e Marketing). Doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo (1998), À sua iniciativa se ficou devendo a publicação, no Jornal do Fundão e no Notícias de Luanda, de páginas especiais dedicadas à poesia experimental, sendo também um dos organizadores do segundo caderno de Poesia Experimental e de outras publicações como Hidra e Operação I.  

 

Origem:  Poesia Experimental 

Leia Poesias de Amor de E. M. de Melo e Castro -»

um poema

Jesus Gómez Costa

pintura de Jesus Gómez Costa

 

 

de amor se faz amor
de nada mais resulta amor
que amor se faz de amor
de nada mais.
resulta amor de amor
que amor se faz de nada.
mais resulta que amor de amor
se faz amor de nada.
mais.

 


in «Antologia efémera: 1950-2000»
Nova Fronteira, 2007

várias fases de um poema de amor (para quem for)

Jesus Gómez Costa

pintura de Jesus Gómez Costa

 

 

 1

aos 4 anos, comunicado a sua mãe ao acordar de um sonho colorido

 

era tanto o amor
era tanta a paixão
que um dia o amor
se fez em terror

 

aos 17 anos, comunicado a uma esquiva namorada

 

(des)apontamento

começo a despertar?
não sei

já deixei de sonhar?
não sei

só sei que estou perdido
na névoa de uma dúvida

:

se é a ti que amo
ou à imagem
que de ti criou
meu pensamento

 

3

aos 22 anos, comunicado a ninguém em especial
 

Pôs seus braços em volta de um pescoço
e inventou argumentos de amor:
Mas o amor - quem era que não vinha?
Mas o amor - quem não compreendia?


Pôs seus braços, as mãos, o busto
e a boca colados à estátua.
Mas o amor era impossível. deslocada imagem.
Pôs música no ar, encheu de arcadas
os espaços vazios. Fez loucuras


desde os pés aos cabelos
e os seios envoltos em cascatas
e em fogo inútil de procuras.

 

4

aos 31 anos, comunicado à adversativa negativa


amor não sentimento não ternura
não desejo não sexo não amor
amor nada concreto não os olhos
preso nunca no peito não por certo


amor fascínio fuga sal sedento
não ângulo não vértice de vidro
não as ruas desertas pensamento
amor não sentimento não sentido


não amor não entrega nunca posse
a fuga porque não nada fragmento
não amor por amor nunca deserto


amor não violento não de vento
não amor desejado mão de invento
amor sempre de não de tempo a tempo

 

 5
Aos 45, comunicado a quem ler

de amor se faz amor
de nada mais resulta amor
que amor se faz de amor
de nada mais.
resulta amor de amor
que amor se faz de nada.
mais resulta que amor de amor
se faz amor de nada.
MAIS

 

6


Aos 70 anos, para uma mulher: tu

vejo uma mulher distante amante
lutando contra o tempo desviante
uma mulher de células diamante
e oráculos védicos bramante…

uma rubra submersa corrente
entregue aos ritos aúricos da mente
que me procura e eu busco demente
entre sonoras sombras manualmente.

uma mulher de súbitos desvios
de onde nascem tumultuosos rios
e se perfilam beijos desvarios
em sexos sanguíneos de-lírios…!…

uma mulher de hoje e de infinitos
saberes e sabores de que se fazem mitos
 

 7

aos 75 anos, poema de desamor e circunstância

o que me diz amor
que amor não seja?

o que me diz o ver
que o ver não seja?

o que me diz o nada 
que eu não tenha?


8

não comunicado aos 75 anos

amor amor amor amor amor
amor amor amor amor amor amor
amor  amor amor amor amor amor  amor
amor amor amor amor amor amor amor amor
 amor amor amor amor amor amor amor amor amor
amor amor amor amor amor amor amor amor amor amor amor amor amor
amor amor amor amor amor amor amor amor amor amor amor amor amor amor 

....................................................................................................................
...................................................................
 

A   M   A   R   -   T   E

 

9

para comunicar aos 110 anos

+
+ + +
+ + + +
+ + + + +
+ + + + + +
+ + + + + + +
+ + + + + + + +
+ + + + + + + + +
+ + + + + + + + + +
+ + + + + + + + +

+ + + + + + + +

+ + + + + + +

a   m   o   r

 

in «Os dias do Amor», por Inês Ramos
Ver Ref.s em Livros de Apoio

Amor não sentimento não ternura

Jesus Gómez Costapintura de  Jesus Gómez Costa

 

 

amor não sentimento não ternura
não desejo não sexo não amor
amor nada concreto não os olhos
preso nunca no peito não por certo

 

amor fascínio fuga sal sedento
não ângulo não vértice de vidro
não as ruas desertas pensamento
amor não sentimento não sentido

 

não amor não entrega nunca posse
a fuga porque não nada fragmento
não amor por amor nunca deserto

 

amor não violento não de vento
não amor desejado mão de invento
amor sempre de não de tempo a tempo
 

 

in «366 poemas que falam de amor»
Antol. org. por Vasco Graça Moura,
Lisboa: Quetzal, 2003

(para ti: Améliamor)

Jesus Gómez Costapintura de Jesus Gómez Costa

 

 

Totalmente Herética.
Absolutamente herméticamente.
És a corrente eléctrica
que subverte a métrica.

 

vejo uma mulher distante amante
lutando contra o tempo desviante
uma mulher de células diamante
e oráculos védicos bramante...

 

uma rubra submérsica corrente
entregue aos ritos áuricos da mente
que me procura e eu busco demente
entre sonoras sombras manualmente!

 

uma mulher de súbitos desvios
de onde nascem tumultuosos rios
e se perfilam beijos desvarios
em sexos sanguíneos de-lírios...!...

 

uma mulher de hoje e de infinitos
saberes de que se fazem mitos. 

in «No Limite das Coisas»
Campo das Letras, Porto, 2003

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