FRANCISCO de SÁ DE MIRANDA

 Francisco_de_Sa_de_MirandaFrancisco de Sá de Miranda (Coimbra, a 28 de Agosto de 1481 — Amares, 1558) foi um poeta português.
Filho do cónego Gonçalo Mendes de Sá e de D. Inês de Melo. Casou com Briolanja de Azevedo em 1552 e passa a viver no Minho, na quinta da mulher em Duas Igrejas, Freguesia do então Concelho de Penela, onde vive anos felizes dedicando-se à família, à escrita e ao cultivo da terra.
Estudou Gramática, Retórica e Humanidades na Escola de Santa Cruz. Frequentou depois a Universidade, ao tempo estabelecida em Lisboa, onde fez o curso de Leis alcançando o grau de doutor em Direito, passando de aluno aplicado a professor considerado e frequentando a Corte até 1521. Data de então a sua amizade com Bernardim Ribeiro.
Para o Paço, compôs cantigas, vilancetes e esparsas, ao gosto dos poetas do século XV.

 

 

 Ler Poesias de Amor de Sá de Miranda -»

Desarrezoado amor, dentro em meu peito

Benvenuto Benvenuti


 

Desarrezoado amor, dentro em meu peito
Tem guerra com a razão, amor que jaz
E já de muitos dias, manda e faz
Tudo o que quer, a torto e a direito. 

 

Não espera razões, tudo é despeito,
Tudo soberba e força, faz, desfaz,
Sem respeito nenhum, e quando em paz
Cuidais que sois, então tudo é desfeito. 

 

Doutra parte a razão tempos espia,
Espia ocasiões de tarde em tarde,
Que ajunta o tempo: enfim vem o seu dia. 

 

Então não tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata traições, que não confia
Nem dos seus. Que farei quando tudo arde?  
 

«Sá de Miranda - Poesias Escolhidas»,
introd. e organiz. de José V. Pina Martins, Verbo, Lisoa, 1969

cantiga feita nos grandes campos de roma

Balthasar Klossowski de Rola

 

Por estes campos sem fim,
onde a vista assim se estende,
que verei, triste de mim,
pois ver-vos se me defende?

 

Todos estes campos cheios
são de saudade e pesar,
que vem para me matar,
debaixo de céus alheios.
Em terra estranha e em ar,
mal sem meio e mal sem fim,
dor que ninguém não entende,
até quão longe se estende
o vosso poder em mim!
 

in «366 poemas que falam de amor»

QUEM AOS OLHOS DAR-ME-Á UMA VERTENTE...

Frederick_Hart_Reverie

Frederick Hart,  Reverie


 

Quem aos olhos dar-me-á uma vertente
de lágrimas, que manem noite e dia?
Ao menos a alma, enfim, respiraria,
chorando, ora o passado, ora o presente?

 

Quem me dará, longe de toda gente,
suspiros, que me valham na agonia
já longa, que o afã tanto encobria?
Sucedeu-me depois tanto acidente!

 

Quem me dará palavras com que iguale
tanto agravo que amor já me tem feito,
pois que tão pouco o sofrimento vale?

 

Ah! quem ao meio me abra este meu peito,
onde jaz tanto mal, por que se exale
tamanha coita minha e meu despeito? 
 

in "Poetas do Século de Ouro Espanhol" (edição bilíngue) 

quando eu, senhora, em vós os olhos ponho

wh rosebuds

 Jonh Waterhouse
Study for Gather Ye Rosebuds, c.1908


 

Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si
e vou tresvaliando, como em sonho.

  

Isto passado, quando me desponho.
e me quero afirmar se foi assim,
pasmado e duvidoso do que vi,
m'espanto às vezes, outras m'avergonho.

 

Que, tornando ante vós, senhora, tal,
quando m'era mister tant' outr'ajuda,
de que me valerei, se alma não vale?

 

Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.
 

in «366 poemas que falam de amor»,
Antologia Organizada por Vasco Graça Moura

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