FERNANDO GUIMARÃES

 

 

Fernando Guimarães nasceu no Porto em 1928. Tem-se notabilizado como poeta, ensaísta e tradutor. A sua obra poética encontra-se reunida nos seguintes livros: Casa: o seu Desenho, IN-CM, 1985; Poesias Completas, vol. I: 1952-1988, Edições Afrontamento, 1994; A Analogia das Folhas, ed. Limiar, 1990; O Anel Débil, Edições Afrontamento, 1992. A sua obra ensaística orienta-se para o estudo de questões teóricas, ligadas à estética, e da evolução da poesia portuguesa nos últimos cem anos, a partir de grandes movimentos como o Simbolismo, o Saudosismo ou o Modernismo.

(...) 

Origem: Projecto Vercial

Ler Poesias de Amor de Fernando Guimarães -»

É dentro de uma flor que fica outra flor

Eduardo Naranjo

Eduardo Naranjo

 

É dentro de uma flor que fica outra flor. Mas
esta é maior ainda. Nela é que se encontravam
as pétalas sobrepostas, a mais alta de todas
as hastes, o súbito perfume que procurava o corpo
de ninguém e, depois, se torna ali mais puro
até que continue outra flor, que ficava perdida
no interior das duas para que já não tenha
limites. E há-de esta ser por fim aquela que colhemos.

 


in «Lições de Trevas», Lições de Trevas, p. 49
Quasi Edições, 1ª ed., Vila Nova de Famalicão, 2002

A verdade cabia nos teus olhos

PeterKoevari, Android Girl PeterKoevari, Android Girl
 

 

A verdade cabia nos teus olhos, mas estes fecham-se
com um movimento que se torna simples. Apenas a espuma
era trazida pelas ondas e outros vestígios chegaram
de um dia humedecido; depois, vimos como se deteve
e ficou de novo submersa. Mas é dela que talvez se receba
um aviso. Ainda hoje a esperamos quando junto de nós
finalmente se encontra uma nova imagem abandonada
pela proximidade da noite. Sabias que a verdade é um aviso?

 

 

in «Lições de Trevas», Acerca do Sentido p. 13
Quasi Edições, 1ª ed., Vila Nova de Famalicão, 2002

Segredo

Almada Negreiros Almada Negreiros
 
 


Os gestos que esconderam qualquer rosto.
E mais nada. O que sentes lembra agora
uma enseada ao longe. assim o modo
de surpreender mais cedo o que era a mesma


imagem que sujeita a própria ausência
ao que por ser assim contém a nova
vontade de encontrar uma mais íntima
direcção insuspeita que se alonga


noutro sentido até ficar oculta
só por instantes no que se aguardava
há muito: este segredo onde procuras


um rio ou uma ponte, os gestos leves
sobre o rosto voltado para nada
daquilo que foi nosso e assim se perde.

 

 

in «Lições de Trevas», Seis Poemas, p. 87
Quasi Edições, 1ª ed., Vila Nova de Famalicão, 2002

POST COITUM OMNE ANIMAL TRISTE

courbet_woman_in_waves, Oil on canvas 65 x 54 cm - The Metropolitan Museum of Art, NY

Gustave Courbet,The Woman in the Waves, 1866

 


Em ti, o poema, o amplo tecido de água ou a forma
do segredo. Outrora conheceste a margem abandonada
do desejo, a sua extensão e principias a entregar
os vasos alongados para receberes as mãos das chuvas.

 

Apagaram-se junto aos olhos as praias, as árvores
que se ergueram um dia sobre as estradas romanas,
o vestígio dos útimos peregrinos, aves nuas
que já desceram, cansadas, pelo interior do teu peito.

 

Uma voz, no silêncio calmo das águas, esquece
a mentira das primeiras colheitas, onde os nossos gestos
perderam os sorrisos ou o orvalho que os cerca.

 

Serenamente, começaram a fechar-se os sonhos de Deus
no interior de novos frutos e, abandonado, fico
junto do teu corpo, onde principia a sombra deste poema.

 

in «Poesias Completas - vol. I: 1952-1988»,
 Afrontamento, Porto, 1994

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