FRANCISCO RODRIGUES LOBO

Francisco Rodrigues Lobo

Francisco Rodrigues Lobo (1579-1621) é um dos mais importantes discípulos de Camões. Tendo sido influenciado por Gôngora, é considerado o iniciador do Barroco na literatura portuguesa. Era de uma família de cristãos-novos, formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, não se conhecendo quaisquer cargos públicos que tenha exercido. Morreu afogado numa viagem de barco que fazia entre Santarém e Lisboa.  A nível poético, escreveu romances bucólicos, éclogas e sonetos Éclogas, Primavera, Condestabre e O Pastor Peregrino). Em prosa escreveu a Corte na Aldeia (1619), que é uma colecção de diálogos didácticos sobre preceitos da vida na corte. Esta obra reflecte a frustração da nobreza portuguesa pelo desaparecimento da corte nacional sob a dominação filipina.

 Origem: Projecto Vercial

Ler Poesias de Amor de Francisco R. Lobo -»

Que amor sigo? Que busco? Que desejo?

Alfred Stevens, Portrait of a Woman

 

 

Que amor sigo? Que busco? Que desejo?
Que enleo é este vão da fantasia?
Que tive? Que perdi? Quem me queria?
Quem me faz guerra? Contra quem pelejo?

 

Foi por encantamento o meu desejo,
e por sombra passou minha alegria;
mostrou-me Amor, dormindo, o que não via,
e eu ceguei do que vi, pois já não vejo.

 

Fez à sua medida o pensamento
aquela estranha e nova fermosura
e aquele parecer quase divino.

 

Ou imaginação, sombra ou figura,
é certo e verdadeiro meu tormento:
Eu morro do que vi, do que imagino.

 

in «Os Dias do Amor»
Ver Ref.s em Livros de Apoio

Meteu-me Amor em seu trato

ALBANI_Francesco_Diana_And_Actaeon Oil on wood transferred to canvas, 1625-1630
    Gemäldegalerie, Dresden

Francesco Albani, Diana and Actaeon

 


Meteu-me Amor em seu trato,
Pôs-me os seus gostos na praça,
Quanto quis me deu de graça.
Mas é caro o seu barato.

 

Amor, que quis que tivesse
Os males por seu querer,
Deu menos bem, que escolhesse,
Para que quando os perdesse
Tivesse mais que perder.
Depois que em minha esperança
Me viu contra o tempo ingrato
Viver livre da mudança
Por tão grande confiança
Meteu-me Amor em seu trato.

 

Vi eu logo que convinha
Dar melhor conta do seu
Do que dei da vida minha:
Deixei perder quanto tinha
Por guardar o que me deu.
O desejo e o temor,
A fé, a vontade, a graça,
Tudo pus na mão de Amor.
Ele que é mais mercador
Pôs-me seus gostos na praça.

 

Entendeu que não sabia
A valia do interesse
Que eu dele então pretendia:
Perguntou-me o que queria
Antes que nada me desse.
Eu, que não soube o que fiz,
Quis um desprezo e negaça,
Quis uns desdéns senhoris,
E por ser graça o que quis.
Quanto quis me deu de graça.

 

Triste do que então cuidava,
Que tudo o que ganhou,
O mal com que se enganava,
E vendo a vontade escrava
Conhece o que lhe custou.
Amor vende como avaro
E faz seguro contrato
Com cautelas sem reparo:
Vende o barato e o caro,
Mas é caro o seu barato. 

in «366 poemas que falam de amor»
ver Livros de Apoio

CORAÇÃO, OLHA O QUE QUERES

A_Lute_Player

Edwin Austin Abbey, A Lute Player

 

Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...

 

Tão tirana e desigual
Sustenta sempre a vontade,
Que a quem lhes quer de verdade
Confessam que querem mal;
se Amor para elas não val,
Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...

 

Se algumas tem afeição
Há-de ser a quem lha nega,
Porque nenhuma se entrega
Fora desta condição;
Não lhe queiras, coração,
E, senão, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...

 

 São tais, que é melhor partido
Para obrigá-las e tê-las,
Ir sempre fugindo delas,
Que andar por elas perdido;
E pois o tens conhecido,
Coração, que mais lhe queres?
Que, em fim, todas as mulheres!  

in «Poesia» por Luís Miguel Nava,
Comunicação, Lisboa, 1985  

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