D. FRANCISCO MANUEL DE MELO

Francisco_Manuel_de_Melo

 

D. Francisco Manuel de Melo (Lisboa, 23 de Novembro de 1608 – 24 de Agosto de 1666) foi um escritor, político e militar português, ainda que pertença, de igual modo, à história literária, política e militar da Espanha. Historiador, pedagogo, moralista, autor teatral, epistológrafo e poeta, foi representante máximo da literatura barroca peninsular. Dedicou-se à poesia, ao teatro, à história e à epistolografia. Tendo publicado cerca de duas dezenas de obras durante a sua vida, foi ainda autor de outras, publicadas postumamente. Aliou ao estilo e temática barroca (a instabilidade do mundo e da fortuna, numa visão religiosa) o seu cosmopolitismo e espírito galante, próprio da aristocracia de onde provinha.

(...)

Origem: Wikipédia

Ler Poesias de Amor de D. Francisco Manuel de Melo -»

Escusa-se ao Céu com a causa do seu delírio

Bronzino, Portrait of a Young Girl

 

 

   Pois se para os amar não foram feitos,
Senhor, aquêles olhos soberanos,
Porque, por tantos modos, mais que humanos,
Pintando os estivestes tão perfeitos?

 

   Se tais palavras e se tais conceitos,
Tão divinas, tão longe de profanos,
Não destes por oráculo aos enganos,
Com que Amor vive nos mais altos peitos,

 

   Porque, Senhor, tanta beleza junta,
Tanta graça e tal ser lhe foi deitado,
Qual ídolo nenhum gozara antigo?

 

   Mas como respondeis a esta pergunta?
Que ou para disculpar o meu pecado,
Ou para eternizar o meu castigo?

 

In «Os Dias do Amor»,
Um poema para cada dia do ano
Ver Ref.s em Liivros de Apoio

Mas adonde irei eu, que este não seja


Collection: Le Louvre, 182

 

 

Mas adonde irei eu, que este não seja,
Se a causa deste ser levo comigo?
E se eu próprio me perco, e me persigo,
Quem será que me poupe ou que me reja?
 

Porque me hei-de queixar do Tempo e Inveja,
Se eu a quis mais fiel ou mais amigo?
Fui deixado em si mesmo por castigo:
Triste serei em quanto em mim me veja.
 

  Esta empresa que em mim tanto em vão tomo,
Esta sorte que em mim seu dano ensaia,
Esta dor que minha Alma em mim cativa.
 

Vós só podeis mudar. Mas isto como?
Como?_ Fazendo que a minha alma saia
De mim, senhora, e dentro de vós viva. 

 

in «366 Poemas que Falam de Amor», 
ver Ref.s em Livros de Apoio

SAUDADES

Aachen_Hans_Joking_Couple

Hans von Aachen (1552-1615), Joking Couple

 

Serei eu alguma hora tão ditoso,
Que os cabelos, que amor laços fazia,
Por prémio de o esperar, veja algum dia
Soltos ao brando vento buliçoso?

 

Verei os olhos, donde o sol formoso
As portas da manhã mais cedo abria,
Mas, em chegando a vê-los, se partia
Ou cego, ou lisonjeiro, ou temeroso?

 

Verei a limpa testa, a quem a Aurora
Graça sempre pediu? E os brancos dentes,
Por quem trocara as pérolas que chora?

 

Mas que espero de ver dias contentes,
Se para se apagar de gosto uma hora,
Não bastam mil idades diferentes?
 

in «Antologia do Período Barroco»
Natalia Correia, Moraes, Lisboa, 1982.

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