FERNANDO ECHEVARRÍA

Fernando Echavarria

 

Fernando Echevarría é um poeta português, nascido em Cabezón de la Sal, Cantábria, em 1929. Filho de pai português e mãe espanhola.
Cursou Humanidades em Portugal e Filosofia e Teologia em Espanha. Exilado em Paris, em 1961, dedicou-se à actividade docente e dividiu a sua existência entre França, Argélia e Portugal. Reside actualmente no Porto.
Colaborou em publicações como Graal, Cadernos do Meio-Dia, Eros ou Colóquio/Letras.
Echevarria é um dos mais destacados nomes da poesia portuguesa, autor de uma vasta obra literária e representado em diversas antologias de poesia.
Publicações
Entre Dois Anjos (1956); Tréguas para o Amor (1958); Sobre as Horas (1963), Círculo de Poesia, Moraes Editores; Ritmo Real (1971); A Base e o Timbre (1974), Círculo de Poesia. Moraes Editores; Media Vita (1979), Brasília Editora; Introdução à Filosofia (1981), Edição do autor; Fenomenologia (1984), Edição do autor; Figuras (1987), Afrontamento/Poesia; Poesia, 1956 – 1979 (1989), Afrontamento/Poesia; Sobre os Mortos (1991), Afrontamento/Poesia; Poesia 1980 (1984), Afrontamento/Poesia (reedição corrigida e aumentada dos livros publicados entre aquelas duas datas); Uso de Penumbra (1995), Afrontamento/Poesia; Geórgicas (1998), Afrontamento/Poesia; Introdução à Poesia (2001), Afrontamento/Poesia;  Epifanías (2007); Obra Inacabada (2007).
Prémios:
Grande Prémio de Poesia do Pen Club (1981 e 1998), por Introdução à Filosofia; Grande Prémio de Poesia Inasset (1987),  por Figuras; Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1991), por Sobre os Mortos; Prémio de Eça de Queiroz (1995) por Uso de Penumbra; Com o Livro Geórgicas foi galardoado com os Prémios: Prémio PEN Clube Português de Poesia 1998;  Prémio de Poesia António Ramos Rosa (1998); Prémio Luís Miguel Nava (1999); Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes (2002) com Introdução à Poesia; Prémio Padre Manuel Antunes (2005), instituído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), pelo conjunto da sua obra; Prémio D. Dinis (2007), Fundação da Casa de Mateus, por Epifanias; Grande Prémio Sophia de Mello Breyner Andresen (2007) por toda sua trajetória poética compilada em Obra Inacabada; Condecorado pelo presidente da República portuguesa com a Ordem do Infante D. Henrique em 2007.

 

Ler Poesias de Amor de Fernando Echevarría -»

Vendo as Jovens

Aurelio Arteta (Espana)

 

Madruga. E água vos desnuda alegres
por dentro dos espelhos. Repentinas
partis. E a superfície exerce
profundidade. E salpicais os dias
 

de movimento, súbito nem leve,
mas pura luz ao longo da retina.
E enquanto sobem músculos ou descem,
visível ave rítmica respira,
 

regressa, vai, ou cega. Tão verdade
que um fundo de água a apaga. E as esquinas
são anúncios antigos de cidade
 

pensando-se na noite, que dominas,
real como quem tem só idade
e, de repente, o azul é meio dia. 

 

in «366 Poemas que falam de amor»,
Antologia organizada por Vasco Graça Moura,
Lisboa: Quetzal, 2003

Amor à Vista

Georgia-Coast--Jekyll-Island-Sunset_Ginette-CallawayGinette Callaway, Georgia Coast - Jekyll Island Sunset 


 

Entras como um punhal
até à minha vida.
Rasgas de estrelas e de sal
a carne da ferida.

 

Instala-te nas minas.
Dinamita e devora.
Porque quem assassinas
é um monstro de lágrimas que adora.

 

Dá-me um beijo ou a morte.
Anda. Avança.
Deixa lá a esperança
Para quem a suporte.

 

Mas o mar e os montes...
Isso, sim.
Não te amedrontes.
Atira-os sobre mim.

 

Atira-os de espada.
Porque ficas vencida
ou desta minha vida
não fica nada.

 

Mar e montes teus beijos, meu amor.
sobre os meus férreos destes.
Mar e montes esperados com terror
de que te ausentes.

 

Mar e montes teus beijos, meu amor!...  

 

in Poesia
Porto, 1989

Vénus

Cabanel,  The Birth of Venus, 1863, oilcanvas 130x255cm Museé D'Orsay, Paris

Cabanel,  The Birth of Venus, 1863

 


Sublevava-se no verbo uma brancura
onde sucumbem subtis
trampolins de alvaiade com que a espuma
se exalta na penumbra e nos quadris.
 

E impugna o púbis. O assusta quase
no aperto da sua timidez
batida pelo mar feliz da frase
que se ergue do triunfo do que fez
 

com Vénus firme a resistir ao meio
da onda aonde se debate a trança.
E onde o desafio do seu seio
 

emerge, enquanto o justo ritmo avança
na só brancura duma espuma escrita
que ambas instrui e que uma só visita.

 

 

in «Uso da Penumbra»,
Edições Afrontamento, Porto, 1995

adão e eva

Adam-and-EveGustav Klimt, Adam and Eve
 

1

 

Feliz era a nudez. Vinha diurna
de dentro de si mesma. Porque o dia
ressumbrava recente desde a sua
novidade de pasmo. E de pupila
apta à evidência. E, por isso, arguta,
sem deduzir-se duma argúcia activa.
Onde fossem seus passos a espessura
entregava o seu fervor de enigma
para depois, se recolher. Ter junta
e pronta a ordem de nova epifania.
Era a nudez da inteligência. Abrupta
e, ao mesmo tempo, de precisão tão íntima
que até os recantos justos da penumbra
recrutavam a luz da perspectiva.  

 

in «366 poemas que falam de amor»,
Antologia organizada por Vasco Graça Moura,
Lisboa: Quetzal, 2003

Vinham rosas na bruma florescida

The New MonetThe New Monet, Rose Hips and Healing Plants


 

Vinham rosas na bruma florescida
rodear no teu nome a sua ausência.
E a si se coroavam, e tingiam
a apenas sombra de sua transparência.

 

Coroavam-se a si. Ou no teu nome
a mágoa que vestiam madrugava
até que a bruma dissipasse o bosque
e ambos surgissem só lugar de mágoa.

 

Mágoa não de antes ou de depois. Presente
sempre actual de cada bruma ou rosa,
relativos ou não no espelho ausente.

 

E ausente só porque, se não repousa,
é nome rodopio que, na mente,
embruma a brisa em que se aviva a rosa. 

 

in «Poemas de Amor»,
Antologia Org.da e Pref.da por Inês Pedrosa,
D. Quixote, 2001

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