ANA HATHERLY

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Ana Hatherly nasceu no Porto em 1929. 

De múltiplos interesses culturais, tem sido poetisa, romancista e ensaísta, para além de professora universitária na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas na Universidade Nova de Lisboa.
 
 
Iniciou a sua carreira literária em 1958, fazendo a sua estreia na poesia com Ritmo Perdido. Entre 1965 e 1973, foi membro activo do grupo da chamada Poesia Experimental, integrando exposições de vanguarda e de poesia concreta em Portugal e no estrangeiro. É exactamente no domínio das vanguardas portuguesas da segunda metade do século que o seu nome adquire relevante importância, explorando possíveis ligações sonoras e visuais da palavra, estabelecendo intersecções entre a literatura e as artes visuais.

... 

A sua obra está representada em várias e importantes Antologias e Histórias da Literatura Contemporânea de Portugal e do estrangeiro. Além de escritora, é também tradutora de várias obras. Realizou ainda várias exposições, reunindo desenho, pintura e colagem.
 

Origem: Instituto Camões

 Ler Poesias de Ana Hatherly-»

A Alta Pirâmide da Fala

Filippo de Pisis Filippo de Pisis

 

I

A alta pirâmide da fala
o que é?
O que é que realmente expressa?

 

Uma efémera aliança
se esconde no enigma do sentido
no mistério do acidente

 

Tudo são zonas de silêncio
e intervalo

 

Um emaranhado só

 


II

 

Falar é
uma saber amplo e profundo
indício
duma obsessão incurável

 

Os pontos ágeis da petulante fala
dobro
como se fossem uma súbita esquina

 

é uma longa caminhada
no sentido do outro
buscando
a esquiva consonância do encontro

 


in «O Pavão Negro»,
Assírio & Alvim, 2003
 

As aves do Apetite

Artur Cruzeiro Seixas

Artur Cruzeiro Seixas

 

As aves do Apetite
cruzam os sentidos
              pairam
                        rondam
orbitam um invisível sítio

 

Uma dúvida predadora
filtra a luz do querer:
           O que é uma vitória?
                            Quanto dura na língua?

 

O buscador de sentidos
torna-se o objecto da sua própria busca

 


in «O Pavão Negro»,
Assírio & Alvim, 2003

As palavras aproximam

Franco Gentilini

 

As palavras aproximam:
prendem-soltam
são montanhas de espuma
que se faz-desfaz
na areia da fala

 

Soltam freios
abrem clareiras no medo
fazem pausa na aflição

 

Ou então não:
                        matam
          afogam
                        separam definitivamente


Amando muito muito
ficamos sem palavras

 

in «O Pavão Negro»,
Assírio & Alvim, 2003

sem amor

 Emilio Bonet Casanova

 

viver sem amor
É como não ter para onde ir
Em nenhum lugar
Encontrar casa ou mundo.


É contemplar o não-acontecer
O lugar onde tudo já não é
Onde tudo se trnsforma
No recinto
De onde tudo se mudou.


Sem amor andamos errantes
De nós mesmos desconhecidos


Descobrimos que nunca se tem ninguém
Além de nós próprios
e nem isso se tem.

 

in «Poemas Femininos»,
& ect, Lisboa 2007

Utopias Privadas

Milton Avery, Conversation

 

 

Utopias privadas
as palavras
são micro-horizontes
revelação
de um deserto-oceano
que nos enche
de um vazio sem fundo


Embalados por palavras
escutamos
em imagens-falas
o atrevimento do amor
que nos move
                      comove
                           estrangula


Enlouquecidos pela dor
cobrimo-nos com o barro das palavras

 

 

in «O Pavão Negro»,
Assírio & Alvim, 2003

As Impensáveis Portas da Ilusão

 Yamandú Canosa

O que é que leva o meu barco
para esta praia
onde um poder esquivo
se contenta
com a ambígua oferta de palavras?
 

Estamos aqui
no exíguo barco do desejo
exibidos
na frágil singularidade do verbo
 

Insatisfeitos sempre
aguardamos
que se abram
as impensáveis portas da ilusão 

in «O Pavão Negro»,
Assírio & Alvim, 2003

O antigo Mar Vermelho

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Laurent Pinsard, Red Rose  

 

Quando tu vens ao meu encontro
sorrindo

 

Rosa precipitada
antigo Mar Vermelho
meu coração
abre-se
 

Poema inédito, in «Cerejas»

II - Canto-te

Steve-Underwood_Blues-Club.jpg

Steve Underwood, Blues Club

 

Canto-te     

         para que tu definitivamente
existas
Canto o teu nome porque só as coisas cantadas
realmente são e só o nome pronunciado inicia
a mágica corrente
Canto o teu nome como o homem fazia eclodir
o fogo do atrito das pedras
Canto o teu nome como o feiticeiro invoca
a magia do remédio
Canto o teu nome como um animal uiva
de
Como os animais pequenos bebem nos regatos depois
das grandes feras
Canto-te
e tu definitivamente existes nos meus olhos
Sempre abertos porque é sempre os meus olhos
são os olhos da criança que nós somos sempre
diante da imensidão do teu espaço

 

Canto-te
e os meus olhos sempre abertos são a pergunta
instante pendente de eu te interrogar

 

e interrogo as coisas em seu ser noctumo
em seu estar sombriamente presentes na tua claridade
obscura
E como é sempre
meus olhos abertos prescrutam-te

 

símbolo de tudo o que me foge
como apertar o ar dentro das mãos
e querer agarrar-te

 

oh substância
Canto-te

 

com a fragilidade de tudo que existe perante
uma eternidade demasiado nocturna para os nossos
olhos infantis perante a tua antiguidade
futura
E a nossa voz é uma pequena onda no dorso
do teu oceano de matéria
Um leve arrepio apenas na espantosa espessura
de teu éter
Ah no ar é que tudo acontece
no ar nocturno das idades esquecidas
que previamente desconheceremos
No espaço é que tudo acontece
e o espaço é uma grande

         muito quieta
onde os nossos olhos penetram
no não sabermos até onde
ali
além
no além onde tudo acontece
Oh
oh espaço de tudo ser tão ligeiro e impalpável
e sermos nós a respiração da
teu bafo ritmado
imperceptível distância
Oh

         augusta majestática dignidade do silêncio
Oh impassibilidade da tua mecânica celeste
Oh organismo primeiro de todos os fins secretos
da compreensão das coisas
Oh inorgânico organismo dos seres
que se devoram
Oh      

         diz
a quem servimos nós de pasto
Canto-te
como quem pronuncia o Mantra esotérico do teu nome
Canto-te e grito
para que a poeira que se infiltra em todas as
coisas se erga de ti como um plâncton
Oh Madre
matriz das criaturas inferiores que rastejam
a teus pés cobertas de pó
esse pó que a cada momento ameaça submergir-nos
Oh aranha enorme tecendo tua teia de pó
Oh

         que desintegras tudo e tudo tu constróis
Ah

         como nós lambemos tuas duras mãos
Oh 

         que fustigas nossos olhos com tua sombra
Enorme
Oh
         que deixas tanto espaço para o silêncio
         das mil pétalas
         dos mil braços esplendorosos em seu abandono
         dos murmúrios
         dos afagos
         sangue derramado sobre o mundo
Oh
Porque és sempre tão premente?
e sempre estás ausentemente
na tua constância em todas as coisas?

 

Oh sono
Oh

         morte tão desejada e longa
         mágica povoada de átomos
milhões de espíritos enchem o teu sopro
E penetras em nós como uma bala
E tudo morre quando tu chegas
E tudo se dilui e se transforma em ti
         alada presciência de tudo acontecer
tão longe de nós e tão antigamente
e tudo nos ultrapassar com soberana indiferença
ante os nossos olhos cegos pelo teu negrume
Oh
brilha para dentro de mim
Acende teus luzeiros em meus olhos
Ergue teus braços oh

         prenhe de tudo
Oh vaso
Oh via láctea de nos amamentares com teu leite
de sombra
Oh

          úbere e pródiga
Aleita tua ninhada faminta
Grande fera luzidia
Grande mito
Grande deus antigo
Oh

         urna onde todos dormimos
Oh
Meus olhos choram já de tanto prescrutar-te
E canto-te
Canto-te
Para que tu existas
E eu não veja mais nada além de ti
E nada mais deseje senão que venhas outra vez
levar-me para dentro do teu ventre
de nunca mais haver
E nada mais haver que 


Oh tu

         definitivamente além
 

Poemas de Eros Frenético e Contemporâneos
«um calculador de improbabilidades»
Quimera - 1ª edição 2001 

príncipe

www.deviantart.com
© Niaoblis

 

Príncipe:
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jameis bato à tua porta.
Contudo
quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um naufrágio sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito
tudo era apenas lábios pálpebras
intumiscências cobrindo o corpo de flutuantes
volteios de palpitações trémulas adejando
pelo rosto beijava os teus olhos por dentro.
Beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão
sobre o meu pensamento corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.

 

São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me.
 

in «Poesia» 1958-1978, 
Moraes, Lisboa, 1980

 

«-Índice de Poetas Apaixonados
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