ALMEIDA GARRET

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Dramaturgo, poeta, romancista e político, Almeida Garrett  (Porto, 4 de Fevereiro de 1799 — Lisboa, 9 de Dezembro de 1854) foi um inovador da escrita e da composição literária do século XIX. Na conturbada vida política da primeira metade do século, distinguiu-se como jornalista, deputado e ministro. Foram as suas responsabilidades políticas que o levaram a fundar o Teatro Nacional (hoje Teatro Nacional D. Maria II ) e o Conservatório. Na sua actividade de dramaturgo propõe-se criar um repertório dramático português. Como romancista, Garrett é considerado o criador da prosa moderna em Portugal. Na poesia, é dos primeiros a libertar-se dos cânones clássicos e a introduzir em Portugal a nova estética romântica

 

Origem:  CITI

 

Ler Poesias de Almeida Garret -»

IV AQUELA NOITE!

Frederic Soulacroix, Spring Frederic Soulacroix, Spring




Era a noite da loucura,
Da sedução, do prazer,
Que em sua mantilha escura
Costuma tanta ventura,
Tantas glórias esconder.
Os felizes... e ai!, são tantos...
Eu, por tantos os contava!
Eu, que o sinal de meus prantos
Do aflito rosto lavava –
Os felizes presunçosos
Iam nos coches ruidosos
Correndo aos salões doirados
De mil fogos alumiados,
Donde em torrentes saía
A clamorosa harmonia
Que à festa, ao prazer tangia.

 

Eu sentia esse ruído
Como o confuso bramar
De um mar ao longe movido
Que à praia vem rebentar:
E disse comigo: «Vamos,
Os lutos d’alma dispamos,
À festa hei-de ir também eu!»

 

E fui: e a noite era bela,
Mas não vi a minha estrela
Que eu sempre via no céu:
Cobriu-a de espesso véu
Alguma nuvem a ela,
Ou era que já vendado
Me levava o negro fado
Onde a vida me perdeu?

 

Fui; meu rosto macerado,
A funda melancolia
Que todo o meu ser revia,
Qual o ataúde levado
A egípcio festim, dizia:
«Como vós fui eu também;
Folgai, que a morte aí vem!»
Dizia-o, sim, meu semblante,
Que, onde eu chegava, o prazer
Cessava no mesmo instante;
E o lábio, que ia a dizer
Doçuras de amor, gelava;
E o riso, que ia a nascer
Na face linda, expirava.
Era eu - e a morte em mim,
Que só ela espanta assim!

 

Quantas mulheres tão belas
Ébrias de amor e desejos,
Quantas vi saltar-lhe os beijos
Da boca ardente e lasciva!
E eu, que ia chegar-me a elas...
Para logo a fronte esquiva
De recatos se envolvia
E, toda pudor, tremia.

 

Quantas o seio anelante,
Nu, ardente e palpitante
Andavam como entregando
À cobiça mal desperta,
Gasta já e desdenhosa,
Dos que as estavam mirando
Com vaga luneta incerta
Que diz: «Aquela é formosa,
Não se me dava de a ter.
E esta? É só baronesa,
Vale menos que a duquesa:
Não sei a qual atender.»

 

E a isto chamam prazer!
A grande ventura é esta?
Vale a pena vir à festa
E vale a pena viver.
Como então quis à tristura
Do meu viver isolado!
Fique-se embora a ventura,
Que eu quero ser desgraçado.

 

Levantei alto a cabeça,
Senti-me crescer – e a frente
Desanuviar-se contente
Do feio negrume espesso
Que assustava aquela gente.
Logo os sorrisos caíram
Para o meu lado também;
Já como um dos seus me viam,
Que em mim não viam ninguém.
Eu, de olhos desencantados,
A elas, como as eu via!
Meus entusiasmos passados,
Oh!, como deles me ria!

 

Frio o sarcasmo saía
De meus lábios descorados,
E sem dó e sem pudor
A todas falei de amor...
Do amor bruto, degradante,
Que no seio palpitante,
Na espádua nua se acende...
Amor lascivo que ofende,
Que faz corar... elas riam
E oh, que não, não se ofendiam!

 

Mas o orquestra bradou alta:
«Festa, festa!, e salta, salta!»
os seus guizos delirantes
Sacode louca a Folia...
Adeus, requebros de amantes!
Suspiros, quem nos ouvia?
As palavras meias ditas,
Meias nos olhos escritas,
Voavam todas perdidas
Dispersas, rotas no ar;
Que se foram almas, vidas,
Tudo se foi a valsar.

 

Quem é esta que mais voltas
Gira, gira sem cessar?
Como as roupas leves, soltas,
Aéreas leva a ondular
Em torno à forma graciosa,
Tão flexível, tão airosa,
Tão fina! - Agora parou,
E tranquila se assentou.
Que rosto! Em linhas severas
Se lhe desenha o profil;
E a cabeça, tão gentil,
Como se fora deveras
A rainha dessa gente,
Como a levanta insolente!

 

Vive Deus!, que é ela... aquela,
A que eu vi na tal janela,
E que triste me sorria
Quando passando me via
Tão pasmado a olhar para ela.
A mesma melancolia
Nos olhos tristes - de luz
Oblíqua, viva mas fria;
A mesma alta inteligência
Que da face lhe transluz;
E a mesma altiva impaciência
Que de tudo, tudo cansa,
De tudo o que foi, que é,
E na erma vida só vê
O raio da vaga esp’rança.

 

«Pois isto sim, que é mulher»,
Disse eu - «e aqui há que ver».
Já vinha a pálida aurora
Anunciando a manhã fria,
E eu falava e eu ouvia
O que até àquela hora
Nunca disse, nunca ouvi...
Toda a memória perdi
Das palavras proferidas...
Não eram destas sabidas,
Nem quais eram não no sei ...
Sei que a vida era outra em mim,
Que era outro ser o meu ser,
Que uma alma nova me achei
Que eu bem sabia não ter.

 

E daí? - Daí, a história
Não deixou outra memória
Dessa noite de loucura,
De sedução, de prazer...
Que os segredos da ventura
Não são para se dizer.


in «Folhas caídas». 
2 ed. Mem-Martins : Europa-América

II. A Julia

Frederic Charles Soulacroix, Flirtation Frederic Soulacroix, Flirtation

 

 


I


Oh, que suave foi este momento
Que dormir tam feliz, tam descuidado!
          Andou me o pensamento
Voando nas delicias do passado,
          Requintando o mais puro
          Dos gostos que me deste,
Para formar esp'ranças de um futuro
          Mais divino e celeste.


II


E tu, Julia querida, não dormiste?
          insensivel caiste
N'essa tristeza de doçuras cheia,
          Que as almas como a tua
          Tam brandamente enleia
Em acordados sonhos de ventura.


III


Ambos fomos ditosos.
E' só dado aos amantes venturosos
       Dormir somnos tam doces:
Vêm depois os prazeres despertal-os;
          Co'a alegre travessura
          Amor vem acordal-os.
Elle te chama, suspirada amante,
          Pela voz da ternura,
          Deixa a melancholia:
São tranquillos demais seus tenues gosos.
          No seio da alegria,
          Nos braços da ventura,
Vem commigo folgar por estes bosques.
          Por entre esta espessura.


IV


Dêmos a mão a serios pensamentos.
          Em quanto o sol dardeja
Para longe de nós raios de fogo,
          Aqui, onde veceja,
Ás escondidas délle, a primavera
          Com tam frescos verdores,
Gozemos nossos placidos amores.


V


As dryades sensíveis,
Que dentro d'esses troncos nos escutam,
Oiçam nossas conversas apraziveis,
          As expressões amantes
          De dois peitos constantes
Em suas verdes cortiças escrevendo.
          Como ellas vão crescendo,
          Cresçam nossos amores:
E quando, pelas cópas remoçadas,
          Brotarem novas flores
          Nas árvores lembradas
          De tam doces momentos,
Serão mais lindas as suas lindas côres,
          Serão mais engraçadas

 

VI


Tavez que a mão de algum amante as colha
          Para adornar o seio
          Do seu querido enleio;
E esse amante dirá: - Julia a formosa,
          Julia, tam adorada,
          Aqui foi venturosa:
Seja feliz como ella a minha amada! -


VII


Assim dirá; e as dryades lembradas
          Rirão do voto uffano:
Que ellas bem sabem como o deus tyranno
          Jurando promettêra
Que tanto, tanto amor como ao meu dera
Não o poria mais em peito humano.
           


in «Obas Completas», Flores sem Fruto, Livro Primeiro

XIII A Anália

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 Fred Appleyard, Pearls for Kisses
 

 

Salve dia d'amor sempre jucundo!
          Anália encantadora
          Nesta risonha aurora
Para me aventurar vieste ao mundo.

 

Quando assomar no apavonado oriente
          Amor te viu fagueiro,
          As frechas prazenteiro
Aguçou, e sorriu todo contente:

 

Fugiu da mãe aos amorosos braços,
          E em teu rosto divino
          Depor foi, de contino,
Encantos, filtros e amorosos laços.

 

Assim me enfeitiçaste! - assim rendida
          Trago alma e coração,
          Que, sem esta prisão,
Nem eu já sei viver nem quero a vida.

 

Anália, amado bem, tão fausto dia
          Celebremos contentes;
          E as flores inocentes
Colhamos desta vida fugidia:

 

O tempo voa, as horas despedidas
          Tão ligeiras decorrem,
          Murcham tão breve e morrem
Rosas que do prazer não são colhidas!...

    Porto - 1819.
 

                Lírica, Primeiros versos,
Lírica de João Mínimo, Lello & Irmão 1981 

XIX A cor da rosa

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Steven Meyers, Rose 

 

Alvejava de neve outrora a rosa,
Nem como agora, doce recendia;
Baixo voava Amor sem tento um dia,
          E na rama espinhosa
De sua flor virgínea se feria.
Do sangue divina! gota amorosa
Da ligeira ferida lhe corria,
E as flores da roseira onde caía
Tomavam do encarnado a cor lustrosa.
          Agora formosa
          A rúbida flor
          Recorda de Amor
          A chaga ditosa.

 

Para os braços da mãe voou chorando;
Um beijo lhe acalmou penas e ardores:
E tão doce o remédio achou das dores,
Que Amor só desejou de quando em quando
          Que assim penando,
          Com seus clamores
          Novos favores
          Fosse alcançando.

 

Súbito voa, pelos ares fende;
As rosas viu de sua dor trajadas,
E que só de suas glórias namoradas
Nada dissessem com razão se ofende:

          A mão lhe estende,
          E delicioso
          Cheiro amoroso
          Nelas recende.

 

Vós que as rosas gentis buscais, amantes,
          Nos jardins do prazer,
E, em vez da flor, espinhos penetrantes
          Só chegais acolher,
Resignados sofrei, sede constantes,
          Que a desventura,
          Que a mágoa e dor
          Sempre em doçura
          Converte Amor.

 

 

Coimbra - Fevereiro, 1820.

 

Almeida Garrett, Lírica - Primeiros versos,
Lello & Irmão, 1981

NÃO TE AMO

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Rossetti, Dante Gabriel, Fazio's Mistress, 1863
Tate Gallery, London
 

 

Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
   E eu n'alma --- tenho a calma,
   A calma --- do jazigo.
   Ai! não te amo, não.

 

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
   E a vida --- nem sentida
   A trago eu já comigo.
   Ai, não te amo, não!

 

Ai! não te amo, não; e só te quero
   De um querer bruto e fero
   Que o sangue me devora,
   Não chega ao coração.

 

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
   Quem ama a aziaga estrela
   Que lhe luz na má hora
   Da sua perdição?

 

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
   De mau feitiço azado
   Este indigno furor.
   Mas oh! não te amo, não.

 

E infame sou, porque te quero; e tanto
   Que de mim tenho espanto,
   De ti medo e terror...
   Mas amar!... não te amo, não.

 

in «Folhas Caidas e Outros Poemas»,
Livraria Clássica Editora,  1978

GOZO E DOR

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 Baldomero Romero Ressendi

 

Se estou contente, querida,
Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
- Não, ai, não! falta-me a vida,
Sucumbe-me a alma à ventura:
O excesso de gozo é dor!

 

Dói-me a alma, sim, e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.

 

É que não há ser bastante
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
Tremo dele, e delirante
Sinto que se exaure em mim
Ou a vida ou a razão. 

 

in «Folhas Caidas e Outros Poemas»,
Livraria Clássica Editora,  1978

Rosa Pálida

 Mark Harden's Artchive: www.artchive.com

 Burne-Jones, Edward, Hope (unfinished) 1861-2
Oil on canvas, Private collection

 

Rosa pálida, em meu seio
Vem querida, sem receio
esconder a aflita cor.
Ai! a minha pobre rosa!
Cuida que é menos formosa
Porque desbotou de amor.

 

Pois sim... quando livre, ao vento,
Solta da alma e pensamento,
Forte de sua isenção.
Tinhas na folha incendiada
O sangue, o calor e a vida
Que ora tens no coração.

 

Mas não era, não, mais bela,
Coitada, coitada dela,
A minha rosa gentil!
Curvavam-na então desejos,
Desmaiam-na agora os beijos...
Vales mais mil vezes, mil.

 

Inveja das outras flores!
Inveja de quê, amores?
Tu, que vieste dos céus,
Comparar tua beleza
Às folhas da natureza!
Rosa, não tentes a Deus.

 

É vergonha... de quê, vida?
Vergonha de ser querida,
Vergonha de ser feliz!
Porquê? Porquê em teu semblante
A pálida cor da amante
A minha ventura diz?

 

Pois, quando eras tão vermelha
Não vinha zangão e abelha
Em torno de ti zumbir?
Não ouvias entre as flores
Histórias de mil amores
Que não tinhas, repetir?

 

Que hão-de eles dizer agora?
Que pendente e de quem chora
É o teu lânguido olhar?
Que a tez fina e delicada
Foi de ser muito beijada,
Que te veio a desbotar?

 

deixa-os: pálida ou corada,
Que isenta ou namorada,
Que brilhe no prado flor,
Que fulja no céu estrela,
Ainda é ditosa e bela
Se lhe dão só um amor. 

in «Lírica Completa»,
Arcadia, Lisboa, 1971
«-Índice de Poetas Apaixonados
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