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Biografia de Miguel Torga

 

Miguel Torga é o nome literário do médico Adolfo Rocha nascido em S. Martinho de Anta, distrito de Vila Real, a 12 de Agosto do ano de 1907. Proveniente de uma família humilde, teve uma infância dura, que lhe deu a conhecer a realidade do campo, sem bucolismos, feita de árduo e contínuo trabalho. Após uma breve passagem pelo seminário de Lamego, emigrou com 13 anos para o Brasil, onde durante cinco anos trabalhou na fazenda de um tio em Minas Gerais.
Regressou a Portugal em 1925, concluiu o ensino liceal e frequentou em Coimbra o curso de Medicina, que terminou em 1933. Exerceu a profissão de médico em São Martinho de Anta e em outras localidades do país, fixando-se definitivamente em Coimbra, como otorrinolaringologista, em 1941.
Miguel Torga, tinha uma personalidade literária marcada pela individualidade veemente e intransigente, o que o manteve afastado durante toda a vida, das escolas literárias e mesmo do contacto com os círculos culturais do meio português. Não se inibe de fazer duras criticas desde que as sinta como verdadeiras. Para Torga o título d’Os Lusíadasrepresenta a expressão da nossa tacanhez e os versos, considerava ele, eram mais ilegíveis do que os da Divina Comédia.

Nem sempre escrevi que sou intransigente, duro, capaz de uma lógica que toca a desumanidade. [...] Nem sempre admiti que estava irritado com este camarada e aquele amigo. [...] A desgraça é que não me deixam estar só, pensar só, sentir só.

A esta intensa consciência individual aliou-se, no entanto, uma profunda afirmação da sua pertença à natureza humana, com que se solidariza na oposição a todas as forças que oprimam a energia viva e a dignidade do homem, sejam elas as tiranias políticas ou o próprio Deus. Miguel Torga era por muitos considerado um homem arrogante, expunha a sua verdade sem quaisquer restrições na apreciação de pessoas, acontecimentos e factos; nunca receou atacar o estabelecido ao mesmo tempo que não punha de lado conceitos conservadores em que acreditava:

Que cada frase em vez de um habilidoso disfarce, fosse uma sedução [...] e um acto sem subterfúgios. Para tanto limpo-a escrupulosamente de todas as impurezas e ambiguidades.

Torga alterava até as suas próprias posições desde que a "sua" verdade assim o exijisse. Era igualmente um homem obcecado pela ideia da morte e da solidão e afirmava-o de forma inequívoca:

O homem é, por desgraça, uma solidão: Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós.

A vivência dos sofrimentos da emigração e da vida rural, do contacto com as misérias e com a morte, fez de Miguel Torga o poeta do mundo rural, das forças telúricas e ancestrais. A revolta contra todas as leis que aprisionam o instinto humano é a grande missão do poeta, que se afirma tanto na violência com que acusa a tirania divina com a terrestre. Essa revolta, está patente na sua obra que, embora recheada de simbologia bíblica, se encontra imersa num sentido divino que transfigura a natureza, e dignifica o homem no seu desafio ou no seu desprezo, face ao divino.
A ligação de Torga a Portugal, à própria Península Ibérica e às suas gentes, é uma constante dos seus textos mas, Trás-os-Montes, é o seu grande amor e surge a cada momento na sua prosa, o pseudónimo de Torga não escolhido por acaso: Torga, ou urze, planta bravia, humilde, espontânea e com o seu habitat no chão agreste por todo o Portugal, mas particularmente nas serranias do norte.
Miguel Torga tornou-se um exímio conhecedor de Portugal, conhecimento este, que ele alargou também a Espanha, países por ele considerados unidos no conceito de uma Ibéria comum. Este conceito tinha por base a rudeza e pobreza dos seus meios naturais, pelo movimento de expansão e opressões da história, e por certas características humanas definidoras da sua personalidade. A intervenção cívica de Miguel Torga, na oposição ao Estado Novo e na denúncia dos crimes da guerra civil espanhola e de Franco, valeu-lhe a apreensão de algumas das suas obras pela censura e, mesmo, a prisão pela polícia política portuguesa.
O 25 de Abril, a par do sentido de libertação traz-lhe algumas desilusões - as perseguições, a procura de lugares.

A política é para eles (os políticos) uma promoção e, para mim, uma aflição.

Sobre a regionalização, pergunta:

O mundo a braços com o drama das diversidades e nós, que há oitocentos anos temos a unidade nacional no território, na língua, nos costumes e na religião, vamos desmioladamente destruí-la?

Não apoia nem tem a mínima simpatia pela União Europeia. Ela ofende o seu espirito patriótico e o seu ideal de Pátria.

É o repúdio de um poeta português pela irresponsabilidade com que meia dúzia de contabilistas lhe alienaram a soberania (...) e Maastricht há-de ser uma nódoa indelével na memória da Europa.

Miguel Torga em 17 de Janeiro de 1995.