A Posteriori

Craig Mullins, mermaidCraig Mullins, mermaid

  

 

No princípio era treva.
Alma que se rebela
Contra um céu que se encobre.
E Judas foi o mau
Na novela de Cristo
Para embarcarmos na ideia
De outro metal mais nobre.

 

O mal foi um Ulisses
Com medo das sereias.
O que seria o mundo
Se ele as tivesse ouvido?
Talvez saísse um cuco
Do relógio das veias
Anunciando so mundo
Que Deus tinha nascido.

 

 

in Inéditos 1961/66,
Poesia Completa

Em louvor do poeta anónimo

Clarence Holbrook CarterClarence Holbrook Carter

 

 

Tinha a idade de uma flor
Em seu enleio embebida
E a viola era o seu modo
Amante de estar na vida.

 

No amor nascera o rio
Que o coração lhe inundava.
Nascera o rio no amor
Mas o fim não lhe enxergava.

 

De cada vez que tocava
No infinito se perdia
Do corpo dessa viola
que mais amor lhe pedia.

 

Ficou entre nós o tempo
Que fica uma andorinha
Deu-nos essa Primavera
Porque deu tudo o que tinha.

 

Foi-lhe o corpo atrás da alma
Que lhe pedia mais amor.
O seu nome ninguém sabe.
Dizem que era Trovador. 

 

in Inéditos 1955/57
Poesia Completa

Novas Notícias que os amantes dão de cristo ao mundo


Jesus Christ - Musée du Louvre  

 

 

 

Senhor, foi pelos amantes que morreste na cruz.
Tempo é de nos dizeres que esse teu sofrimento
É o espelho dos seus corpos extasiados e nus.
Como tu, abolidos, pelos fariseus cercados
Dão-te uma flor de sangue quando loucos se dão
Na nascente da luz dos amores desvairados
Que é a fonte sagrada da tua paixão.

 

in Inéditos 1955/57
Poesia Completa

Ode à Paz

William Whitaker, Child LightWilliam Whitaker, Child Light

 

 

 

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego, dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz,
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!                              

                              deixa passar a Vida! 

 

 in Inéditos, 1985/1990,
Poesia Completa

O cavalo

Cayetano de Arquer BuigasCayetano de Arquer Buigas


 

  

Teus poros exalam o fumo
Do lar dos deuses de onde vieste.
Rompante de espuma e de lume
És sol quadrúpede ou mar equestre?

 

Desfilando derramas o ouro
Do teu rio inacabável,
Desmedido relâmpago louro
De um deus equídeo possante e frágil.

 

Tudo existiu para que fosses
No contraluz desta madrugada
Mitológica proporção perfeita
Em purpúrea bruma recortada.

 

Pois que te é divino mister
Humanos olhos extasiar
A dúvida é só perceber
Se vieste do sol ou do mar. 

 

 

in INÉDITOS 1985/90,
Poesia Completa

continuar a ler »

Índice de "INÉDITOS"

«- Índice da Obra de Natália Correia
UMA HOMENAGEM À ESCRITA

HOMENAGENS de nESCRITAS
 Al Berto
 Antonio Franco Alexandre
 Antonio Maga
 Antonio Ramos Rosa
 Eugenio de Andrade
 Fernando Pessoa
 F. Pessoa - Mensagem
 Joao-Maria Nabais
 Joao Ricardo Lopes
 Jose Luis Peixoto
 Miguel Torga
 Natalia Correia
 Os Nossos Poetas
 Poetas Apaixonados
 Ruy Belo
 Sophia de Mello Breyner
 F. Pessoa in English
 Homenagem ao Gato
  Pagina de Entrada
________________________________

________________________________

________________________________

Pesquisa Technorati

Technorati

» sítios com links para aqui

________________________________