Já a luz se apagou do chão do mundo

Gaaleria Aberta - Carlos Godinho, Visões de Um Azul, 2008

 Carlos Godinho, Visões de Um Azul, 2008
 

 

Já a luz se apagou do chão do mundo,
deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.


in «Duende»
Assírio & Alvim, 2002

36. Talvez agora, por divertimento

Eduardo Patarrão, Perna

Eduardo Patarrão, Perna

 

Talvez agora, por divertimento,
me esmagues a cabeça contra um muro,
ou antes, por ser grande a minha ofensa,
com um pé nu me quebres a garganta.
É bem melhor assim, do que o rasgão
irregular e rombo das navalhas,
ou o silvo cortante das palavras
vibrando no ar frio como uma foice;
dá para ver a fina tatuagem
de uma cobra em redor do tornozelo,
ou admirar, em última mensagem,
a distinção da voz que me anoitece.
Antes assim que de cortês figura
a meio me cortares por desmazelo.
 

in «Duende»
Assírio & Alvim, 2002

Fosses tu deus, seria eu santo

Benvenuto Benvenuti

 

 

Fosses tu deus, seria eu santo
alimentado a areia e gafanhotos,
sem cessar meditando o único nome
que o horizonte deserto contém.
Sonho que acordo dentro do meu sonho
para o saber mais certo e mais real;
como o místico leio nas entranhas
da ausência a tua sombra desenhada.
E no entanto és gente, sangue e terra,
corpo vulgar crescendo para a morte;
incerto no que fazes, no que sentes,
e cioso do tempo que me dás.
Porque sei que esqueces é que me lembro
cada instante o que perco e não vem mais.

 

in «Duende»
Lisboa: Assírio & Alvim, 2002

39. Já proibi as letras e as imagens

Balthasar Klossowski de Rola (Balthus)

 


Já proibi as letras e as imagens
e até o horizonte, azul-tranquilo,
penso bani-lo um dia, como o erro
que se corrige a tempo num esboço.
Se do poço te ergui, foi distraído
pelo suor maligno em que dormias,
julgando que mais tarde poderia
consertar o defeito de fabrico.
Agora me arrependo de ter dito
verdadeiras palavras ao ouvido
de cego e desastrado demiurgo;
vou fechar para férias o universo
e levar-te num verso com a vida
à oficina das falhas e perdidos.

 

in «Duende»
Lisboa: Assírio & Alvim, 2002

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