1. não tenho estado nada bem, um retrocesso

Edvard Munch

Edvard Munch

 

1.
 

não tenho estado nada bem, um retrocesso
uma maneira de vencer, de ter as mãos sem penas
nenhuma imagem invulgar, apenas o bater
das pálpebras, elas agarram-se
viscosas ao sentido,
e nenhum ar oscila, outras vezes


é o silêncio das ruas, a água
sobre os seixos, líquida,
o silêncio entre as bocas
e as roucas paredes; receio,
sem pavor, o simples
sofrimento.


tenho errado o que faço, a garatuja, os passos;
lembrado certas horas, uns lugares
depois outros,
o sopro de algumas casas, mas também
os poços da lepra,
as estradas cortadas, as naus
inexistentes.


in «Poemas», As Moradas 1 a 3,
Primeiras Moradas, pág. 275

2. fica perto de casa o campo azul

Agustin Ubeda

 

 2.
 

fica perto de casa o campo azul,
a nuvem passageira, uivam flexíveis
combóios com destino suburbano. nova nasce
a fútil ambição de conhecer os corpos,
o flanco parecido com a água, quando
barcos passavam sobre o pesadelo. mas


sá a terra periste, a pedra seca, o lixo,
ruas iguais a ruas diferentes,
e no convexo espelho inevitável
outra faceta olhando
a imagem que fica nas janelas;
engano-me na cifra da paisagem, nem


é certo que respire. as evidências matam,
são um nunca acabar de mãos torcidas
a embrulhar as camisas derradeiras,
a inevitável dobra dos sentidos. nunca
acabarão contudo as conjugações, o rumo
desastrado dos astros parasitas.

 

 

in «Poemas», As Morada 1 a 3
Primeiras Moradas, Pág. 276

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1. ligeiramente suspenso pensei: nunca mais

Clarence Holbrook CarterClarence Holbrook Carter

 

1.


ligeiramente suspenso pensei: nunca mais
poderei esquecê-lo, as longas, secas
estradas; os passos na água, nus,
e a perfeita esfera dos versos;
o instante em que o céu é redondo e
inútil,
são-me memória deste chãos, deste cuspo
espantado, no silêncio aberto das coisas.


mudo de rosto para ver-te. nenhum deus
te possui. o caule
do vento te cobre.
e descemos a luz, a transparência
os corredores solenes da lembrança
onde dormidas fúrias anoitecem.
confio na muda boca, ó gume fulvo
de ninguém!


as palavras existem no intervalo das palavras.
nenhuma imagem é o permanente futuro dos corpos
quando se enlaçam, quando se sonham
a colina e a água,
a cidade e o rosto
móvel da multidão apaixonada,
que se afasta correndo para o lado da terra
onde jamais arderam.


in «Poemas», As Morada 1 a 3,
Segundas Moradas, pág. 300

9. tens, do papel, o perfil

Arquer Buigas, Cayetano de

 

 9.
 

tens, do papel, o perfil
talhado a pele de foice,
o turvo tronco, o açoite
do disfarce... na tua água dissolvo
a face, tinta da idade.
como repito que não existes, acordo
opresso pela música, e levantando o pano
constato, surpreso, a tua ausência

 

no meio de tudo,
a mesa, o pão, o talher de vidro,
o perfeito soluço da coruja
gorgolejando sangue,
os altos montes separados que ao fundo se juntam
num veio cintilante.
e, de repente, o ruído da osquestra abafa os passos
nus no soalho,

 

ficamos rodeados por grandes árvores pintadas,
o teu corpo honesto e branco
encostado à parede, suspiras,
de madrugada o autocarro, o sono encruado
das inúteis paragens suburbanas,
pela janela aberta passam ruas, estradas
calcinadas, e para lá da chuva o céu
é uma folha lisa, completa.

 

in «Poemas», As Morada 1 a 3
Segundas Moradas, pág.s 315  - 316

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22. Julgavas, então, que a poesia era um discurso

Andrés Cillero

 Andrés Cillero

 

 22.
 

Julgavas, então, que a poesia era um discurso
de palavras em sentido? Sei quanto a musa aprecia
glória, poder e uniforme, quanto aguarda
o cavaleiro que produz.
A vida, afinal, anda lá fora, antes da folha
ter passado a prensa:
a mais pequena árvore é verde eterna, comparada ao arbusto
que, mal tocada a haste, se desvai em fumo.


Por isso eu fico lendo as crónicas, as lendas,
o jornal que, bem ou mal, cruza as palavras com o tempo,
e contudo! quando o lábio se engana, solta
a mais aguda fífia do trombone,
e de repente o corpo sabe a gente, e então se diz: eis
a verdadeira e pura poesia! pois seria, talvez,
somente  a tua mão, cobrindo a folha.

 


in  «Poemas», As Moradas 1 a 3
Terceiras Moradas, pág. 366

5. carne deitada, a água

Amadeo Roca 

 
 

 5.


carne deitada, a água
dos rios é o que me falta. Eu era, já se sabe,
o inútil enviado de além-senso,
de turíbulo e pano incendiante, e crédito
imponderável no paquete!
Faltou somente a tempestade aérea,


o látego de chuva que trouxesse
ao incêndio da rima o final certo.
Pobre de mim, fiquei lusíada, luzido
nos ritos nupciais, e a vida
a atrasar-me de hora em hora. Quando
será que caibo em terra? E ainda


só viver me falta:
ou seja:

 

 

in «Poemas», As Morada 1 a 3
Terceiras Moradas, pág. 348 

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