a) alguns factos da nossa vida exigem uma teoria

 Ángel Mateo Charris

 

 

alguns factos da nossa vida exigem uma teoria
que os confunda: assim estas coisas simples à transparência
se tornam invisíveis, se deixam percorrer
numa prematura infâmia. não são excessivas as
palavras que a percorrem, como dentro da infância
os vestidos cor de água, as ágatas, a luz azul dos ogres.
                                          don't worry, we're safe
nos guardam: o grande imperador do pico de leste;
a senhora que torna o céu sereno;
os deuses das muralhas & dos fossos.
depois estremecemos ao olhar os toldos,
                                           she wants the young american
era um linho muito brando. estes
são os factos, e uma linha de fogos incessantes.
porisso se justificam igualmente
as inundações, a pestilência. não tem havido tempo
onde encostar o peso das aves. a exaltação,
& depois a necessidade destes juízos,
vêm de uma face longínqua que protege
o olhar, ou a sua imperícia.
aos factos juntarei agora a permanência
de um pavor indeciso. deito-me num corpo,
espalho na boca as sementes, o vidro, e ainda assim
acordo sem boca. as paredes, os toldos, e a desolação
dos animais absortos na brancura,
o meu país das Naus, de esquadras & de frotas
tudo se conjuga numa pequena caixa de latão
onde escondeste uma renúncia: quase descolorida.
este libro está dedicado a la historia actual, a la política.
Considera el pasado
                   unicamente como una introducción
                                       al porvenir
porisso certamente as naves, o seu cheiro de erva
qando ardem as velas,
                     & o rumor azul
dos pássaros na água.
este é um país de razões surdas, de vagas
tranparências, e depois despedimo-nos
com os telefones imóveis, opacos, oblíquos, os ombros
telescópicos, & esse desejo torpe de ocultar-te.
ao pavor
ficarei devendo o auxílio, exactamente, oculto.
alguma face cai na água, no meio das velas, um rumor
exacto: este o enigma, as paredes absortas,
as janelas douradas onde espalhas
a vasta lentidão do sofrimento.
                           lembro-me
de te ter hesitado, algum horror imóvel
ao sangue, ao hálito das luzes.
dedico-me
         à história actual, à política,
ao desatar dos nomes, à oblíqua precessão
dos telefones, estes são os factos, e a sua indecisão
não me permite recusá-los.
Considere-se esta realidade imóvel unicamente
como uma introdução
                   ao movimento
incessante das águas.
recuso-me a acrescentar a indicação das senhas.

 

in «Poemas», Relatório Um, pág.s 71-73

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b) o que caracteriza a situação é a dialéctica

Fischer Valentin, Young Princess

 

 

o que caracteriza a situação é a dialéctica
minuciosa da exaltação & dos nomes.
esta define um primeiro sector de avanços & renúncias.
algumas noites o ciúme devora a insensatez
destas caixas secretas, e é muito tarde que te invento.
ficarei exausto dentro da tua voz. então
é necessário variar as dunas,
percorrer com decisão as ruas devastadas,
exigir um poder sem complacência.
tudo isto ignora a tua desolação, a minha
breve repugnância, mas essa
é a lei em que nos transformamos
à medida que as águas avançam.


in  «Poemas», Relatório Um, pág. 73

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c) Só com a actividade revolucionária é que a transformação de si

Corneille

Corneille

 

Só com a actividade revolucionária é que a transformação de si
coincide com a transformação das coisas
e a transformação das coisas é, talvez, o lugar
de uma coincidência obscura
reunindo a transparência.
aceito a pele, a água, a leve repugnância
do teu suor imóvel, sei
que os teus ombros se apagam na nudez.
assim nasce o pavor. o futuro saberá
lentamente adiar o que sofremos, as naves,
o teu olhar dourado nas janelas.
trocaremos de sonhos, de lugares, de
lágrimas. tão leves os teus dias me inventaram.
esta é, sem dúvida, a teoria sem a qual
pereceremos juntos.

 

in  «Poemas», Relatório Um, pág. 74

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d) alguns outros factos deliberadamente ocultos

Ghislain Magritte Ghislain Magritte 

 


alguns outros factos deliberadamente ocultos
se opõem a uma descrição exaustiva. uma vez
decidido o início, é fácil realizá-lo
no excesso das palavras. de dentro da brancura
soam as vagas que nos justificam, quando
& como se torna necessário.
dedico-me unicamente
                a uma cólera incessante,
este horror da tua transparência
desaparecerá, como as mais coisas que as palavras
tornaram invisíveis.
o céu será, então, torpemente sereno sobre as naves,
os fossos inundados, a muralha.
estes, camaradas, são os factos, dez de julho, lisboa.

 


in  «Poemas», Relatório Um, págs. 74/75

 

Refs: D Hockney; D. Bowie; A. Nobre; Trotsky, La revolución desfigurada, trad., Madrid 1929:
Marx, A Ideologia Alemã.

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