
Balthasar Klossowski de Rola (Balthus)
todos os sítios presos como me pesa o braço de ouro
esta tarde de sandálias atadas ao coração com a boca
húmida de esperma & contraceptivos eficazes
escrevemos o poema com o pavor de baba sobre os olhos
mentindo devagar. é um parque? são a nudez? o calcário
despega-se dos ossos do chão, ossos do chão, o chão do sítio
o que fica depois é o lugar livre de te pegar numa terceira mão
e soletrar o parágrafo tantos do código civil. não. esta nudez
cola-se-me ao corpo, ao braço de ouro, à húmidade
inquieta dos dentes. foeda est in coitus (et brevis) voluptas. o que fica
depois? é um lugar de lençóis, de lâmpadas partidas,
de muitos dedos dentro do ânus, de leis incompossíveis. a linha
recta que estende o sítio, oculta o sítio, resvala sobre o sítio.
nela o espírito (logos) desata o deu pavor. um rastro?
vejamos o fogo: deserto. o ar poeira. a água dissipada.
e a terra que os mistura, um rastro de olhos presos.
é a névoa? ser nu é uma névoa? assim se despega
dos sítios a palavra, a palavra da baba, a baba do pénis.
despega-se do tempo, colada aos dentes, a um lugar
livre de sandálias & bismuto de ouro. é um rio?
diz-me de amor, cos dedos no calcário, parágrafo mil. esperma
certificado conforme. posição admitida. vejamos: o fogo. assim se dissipa
o chão dos ossos, os ossos da nudez, a nudez de ser nu.
depois o que fica? foeda est in coitus etc. fica a palavra.
palavra que fica. e fica um lugar. um sítio de rastros,
um sítio deserto. um ar de pavor. sandálias na boca.
um resto de sítios nos ossos. é um coração?
fica sobre a terra o espaço das mãos. mas entre o seguinte:
entre ossos e chão.
in «Poemas», Sem Palavras Nem Coisas,
pág.s 12 - 13




